Os eleitos

Caros, os vencedores de Brasília, premiação que tem muito a ser discutida, mas com uma saída bem digna do júri ao final. Depois faço balanço mais criterioso, até!

 

44º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro

26 de setembro a 3 de outubro de 2011.

 

PRÊMIOS

Troféu Candango e prêmios em dinheiro

 

FILME DE LONGA METRAGEM

 

Melhor filme – R$ 250.000,00

Filme: “Hoje”, de Tata Amaral

 

Melhor direção – R$ 20.000,00

André Ristum por Meu País

 

Melhor ator – R$ 5.000,00

Rodrigo Santoro por “Meu País”

 

Melhor atriz – R$ 5.000,00

Denise Fraga por “Hoje”

 

Melhor ator coadjuvante – R$ 3.000,00

Ramon Vane por “O homem que não dormia”

 

Melhor atriz coadjuvante – R$ 3.000,00

Gilda Nomacce por “Trabalhar cansa”

 

Melhor roteiro – R$ 5.000,00

Jean-Claude Bernardet, Rubens Rewald, Filipe Sholl por “Hoje”

 

Melhor fotografia – R$ 5.000,00

Jacob Solitrenick por “Hoje”

 

Melhor direção de arte – R$ 5.000,00

Vera Hamburger por “Hoje”

 

Melhor trilha sonora – R$ 5.000,00

Patrick de Jongh por “Meu País”

 

Melhor som – R$ 5.000,00

Mahajugi Kuikuro, Munai Kuikuro e Takumã Kuikuro pela captação de som direto de “As Hiper Mulheres”

 

Melhor montagem – R$ 5.000,00

Paulo Sacramento por “Meu país”

 

FILME DE CURTA METRAGEM

 

Melhor filme – R$ 20.000,00

“L”, de Thaís Fujinaga

 

Melhor direção – R$ 5.000,00

Thaís Fujinaga pelo filme “L”

 

Melhor ator – R$ 3.000,0o

Horácio Camandulle pelo filme “De lá pra cá”

 

Melhor atriz – R$ 3.000,00

Eloína Duvoisin por “A Fábrica”

 

Melhor roteiro – R$ 3.000,00

Ali Muritiba por “A Fábrica”

 

Melhor fotografia – R$ 3.000,00

André Miranda por “Imperfeito”

 

Melhor direção de arte – R$ 3.000,00

Raquel Rocha por “Premonição”

 

Melhor trilha sonora – R$ 3.000,00

Ilya São Paulo por “Ser tão Cinzento”

 

Melhor som – R$ 3.000,00

Kiko Ferraz por “De lá pra cá”

 

Melhor montagem – R$ 3.000,00

Wallacee Nogueira e Henrique Dantas por “Ser tão Cinzento”

 

 

FILME DE CURTA METRAGEM DE ANIMAÇÃO

 

Melhor filme de curta metragem de animação – R$ 20.000,00

Filme: “Céu, inferno e outras partes do corpo”, de Rodrigo John

 

 

Prêmio do Júri Popular – para os filmes escolhidos pelo público, por meio de votação em cédula própria:

Melhor filme de longa metragem – R$ 20.000,00

Filme: Meu país, de André Ristum

 

Melhor filme de curta metragem R$ 10.000,00

 

Filme: A Fábrica, de Aly Muritiba

 

Melhor filme de curta metragem de animação R$ 10.000,00

E ainda

Prêmio Exibição TV Brasil – R$ 10.000,00

Filme: Rái sossaith, de Thomate

 

 
OUTROS PRÊMIOS

 

CÂMARA LEGISLATIVA DO DISTRITO FEDERAL

Troféu Candango

Exclusivo para produções do Distrito Federal

 

Melhor longa-metragem 1º lugar – R$ 75.000,00

 

Filme: “Cru”, de Jimi Figueiredo

 

Melhor longa-metragem 2º lugar – R$ 35.000,00

 

Filme: Sagrada Terra Especulada – a luta contra o Setor Noroeste, de José Furtado

 

Melhor curta-metragem 1º lugar – R$ 25.000,00

Filme: “Deus”, de André Miranda

 

Melhor curta-metragem 2º lugar – R$ 15.000,00

Filme: “A arte de andar pelas ruas de Brasília”. de Rafaela Camelo

 

 

 

AQUISIÇÃO CANAL BRASIL

Incentivo ao Curta-Metragem

Cessão de um Prêmio de Aquisição, no valor de R$ 15.000,00 ao Melhor Curta selecionado pelo júri Canal Brasil.

 

Filme: “Ser tão cinzento”, de Henrique Dantas

 

 

MARCO ANTÔNIO GUIMARÃES

Troféu Candango

Conferido pelo Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro para o filme que melhor utilizar material de pesquisa cinematográfica brasileira.

 

Filme: “Ser tão cinzento”, de Henrique Dantas

 

 

PRÊMIO ABCV – ASSOCIAÇÃO BRASILIENSE DE CINEMA E VÍDEO 

Conferido pela ABCV – Associação Brasiliense de Cinema e Vídeo a profissionais do audiovisual do Distrito Federal.

A ABCV – Associação Brasiliense de Cinema e Vídeo – muito orgulhosamente, mais uma vez, traz à cerimônia de encerramento do Festival de Brasília o Troféu ABCV. Todos os anos, diretores e produtores do Distrito Federal se reúnem para homenagear profissionais, técnicos, fornecedores, atrizes e atores que, pelos seu talento e dedicação, são peças fundamentais para a produção audiovisual local – e nacional.

Cúmplice de sets e da paixão pelo cinema, nosso homenageado nesta 44ª edição do Festival é Roque Fritsh. Contrarregra, produtor, microfonista, maquinista, dublê – e ator!  Notório profissional do cinema brasileiro, Roque é mais facilmente reconhecido como Chefe Eletricista. Sempre competente. Sempre parceiro. Sempre apaixonante.

 

 

PRÊMIO SARUÊ

Conferido pela equipe de cultura do jornal Correio Braziliense.

Troféu Saruê
NO ANO EM QUE O FESTIVAL DE BRASÍLIA DO CINEMA BRASILEIRO FEZ MUDANÇAS IMPORTANTES E IGNOROU A  PREFERÊNCIA POR TÍTULOS INÉDITOS, UM TESOURO CINEMATOGRÁFICA GUARDADO HÁ ANOS E NUNCA EXIBIDA NOS CINEMAS DE BRASÍLIA, EMPOLGOU OS CINÉFILOS EM SESSÕES CALOROSAS E LOTADAS. A EQUIPE DE CULTURA DO JORNAL CORREIO BRAZILIENSE RECONHECE — COM A ENTREGA DO TROFÉU SARUÊ DESTE ANO — O TRABALHO DE PRESERVAÇÃO E TRATAMENTO DAS IMAGENS HISTÓRICAS DO SHOW DA BANDA LEGIÃO URBANA NO MANÉ GARRINCHA EM 1987, APRESENTADAS EM SEQUÊNCIA MAGISTRAL PELO DOCUMENTÁRIO ROCK BRASÍLIA — ERA DE OURO, DE VLADIMIR CARVALHO.

 

 

PRÊMIO DA CRÍTICA

Troféu Candango

 

Melhor filme de longa metragem

Filme: “Hoje”, de Tata Amaral

 

Melhor filme de curta metragem

Filme: “L”, de Thaís Fujinaga

 

PRÊMIO VAGALUME

Troféu conferido por integrantes do projeto Cinema para Cegos

 

Melhor filme de longa metragem

Filme: Meu País, de André Ristum

 

Melhor filme de curta metragem

Filme: Imperfeito, de Gui Campos

 

Melhor filme de curta metragem de animação

Filme: Menina da Chuva, de Rosaria

 

 

 

Lindomar, aquele

Brasília — Caros, apenas algumas horas nos separam da cerimônia de entrega dos Candangos, o troféu brasiliense, marcada para as 20h no Cine Brasília. Aliás, ainda não comentei, esse endereço mítico de um dos principais festivais do país vem sendo objeto, ou melhor está no meio, de uma polêmica. Não é de hoje que o bonito prédio de Niemeyer está pedindo socorro, desconfortável e com problemas estruturais. Continua bonito, talvez um tanto descaracterizado por fora, mas ainda digno, com belos desenhos por dentro. Bem, todas as noites vemos o anúncio que a reforma está vindo, com um anexo projetado pelo arquiteto centenário. Que venha. Só que a direção do festival decidiu este ano tirar dali a tradicional Mostra Brasília, que como o nome diz é dedicada aos filmes locais e que se desenrolava nas tardes, e mudá-lo para a sala do Museu da República. Não conheço o local, mas apenas por ter condições de exibir filmes em digital já é um obstáculo e tanto. Justo nesta edição que passaram a aceitar filmes no formato. Até então, digital era vetado, um destempero que felizmente foi corrigido. Alguns realizadores daqui, como Jimmy Figueiredo, conseguirar uma brecha e exibiram seus filmes no Cine Brasília em 35 mm. Torçamos então para que a reforma logo se dê para um calendário perfeito.  

Por enquanto, o que posso dizer, é que não há pistas do que pode acontecer esta noite. Mas o júri, creio, tem uma bela vitrine para se esbaldar, mesmo que haja filmes irregulares e não inéditos. Acho que isso deveria ser levado em conta para não se carimbar novamente o que outros festivais já pisaram e repisaram, e pior, filmes que estão para estrear já na próxima sexta-feira no país. Nós, os críticos presentes aqui, em reunião para nossa votação debatemos muito esse ponto. E tanto a opinião em geral como nosso voto para curta e longa-metragem vocês saberão mais tarde na cerimônia. Só posso adiantar que gostei muito do resultado. Mesmo que não tenha votado na categoria curta, pois não assisti a todos. No caso do longa, os votos que não coincidiram com os meus são dignos de serem levados em conta, bons filmes, e é isso que afinal importa no saldo de um festival.

Bem, Lindomar ,aquele. É o tema deste post. Ontem a noite vimos o último título da competição, Eu Vou Rifar meu Coração, título da canção aliás desse inominável Lindomar. E não é que a discussão ferveu no debate do documentário da estreante Ana Rieper? Ana, a princípio, propõe um registro da música brega brasileira, embora se fixe eminentemente no Nordeste, em estados como Sergipe, Alagoas e Pernambuco. Ela está baseada em Aracaju e diz acompanhar a muito dali essa tendência que tanto gosta. Pois bem, os cantores/compositores mais festejados do movimento estão lá, Amado Batista, Odair José, Agnaldo Timóteo, Nelson Ned, Rodrigo Mell entre outros. A diretora então desdobra sua atenção para personagens anônimos que representariam muito das situações enquadradas pelas músicas, um tipo corno, um prefeito de pequena cidade sergipana que tem sabidamente duas mulheres, a oficial e a amante, o homem que se apaixonou e casou com a prostituta etc. E há Lindomar Castilho, aquele que em 1981 assassinou durante um show a mulher, cantora  e sua parceira Eliane de Grammont. Ele é ouvido no filme, a frente de seus vários discos de sucesso, explica a dor que pode levar um homem a atitudes radicais ,  o sofrimento do ciúme (ele teria disparado contra a mulher por esta ter o abandonado por outro) etc. Mas nem uma palavra sobre o seu ato, dele nem da diretora, fosse numa intervenção, numa cobrança, num off. Foi esse aspecto o mais polêmico levantado durante o encontro nesta manhã com público e jornalistas. Uma representante dos direitos da mulher lembrou que há toda uma geração que não sabe do ocorrido, afinal lá ser vão três décadas. A jornalista e mediadora do debate, Maria do Rosário Caetano, foi mais incisiva. Lindomar não está mais atuante, vive da glória (e trágédia) do passado, diferente dos seus pares no filme e portanto não teria mais sentido ouvi-lo. Ana, claro, discorda e marca posição. Diz que não quis estigmatiza-lo, que ele já foi julgado, condenado e cumpriu sua pena. Não caberia a ela uma nova investida. Relativo, e como.

Curioso que o público respondeu a seu modo muito particular. Repleto de figuras curiosas e situações divertidas, lembre-se, sempre a revelia dos entrevistados que se desnudam de forma impressionante, o filme ganhou a platéia, que riu muito e aplaudiu em cena aberta, com um final apoteótico. Mas quando Lindomar surge pela primeira vez (e ele volta mais duas vezes), houve silêncio sepulcral até um primeiro chiste duvidoso. Risos, mas também um grito de “assassino”. Que se discuta mais essa opção da diretora em incluir personagem de crônica policial, mas me incomoda mais no filme certa extensão desnecessária de personagens digamos pitorescos, como o prefeito, em desvantagem a personagens que surgem nebulosos como o casal de gays masculinos dançando na meia-luz e sem direito a palavra. Vivo batendo na tecla da ética documental, assunto para ser debatido com mais ênfase por nós, jornalistas, mas tambem especialistas e os próprios realizadores. Nesse sentido, Eu Vou Rifar meu Coração dá um caldo e tanto para discussão. Mais tarde volto com o s resultados! até

 

O fetiche do documentário

Brasília — Antes de desenrolar o propósito desse post, só queria retomar mais algumas idéias breves que me ocorreram durante o debate de Meu País hoje de manhã. Presente na mesa, claro, como roteirista, estava Marco Dutra, um dos diretores de Trabalhar Cansa (ao lado de Juliana Rojas), também em competição por aqui. Não havia atinado como a presença de um jovem nome da cena cinematográfica pouco ou nada parece influenciar em um filme tão acomodado em certa assepsia, ou para usar o termo de Luis Zanin durante o encontro, higienização. Ele se referia a um cenário, a um universo brasileiro da classe média alta que o filme finca a pé, parecendo deixar de fora de modo deliberado as contradições sociais, as diferenças economicas que sabemos serem gritantes por aqui. Mas eu ampliaria isso para todo o mais, da dramaturgia superficial a falta de nuanças dos personagens. Estranho encontrar Dutra nesse contexto, porque não se pode negar a Trabalhar Cansa uma construção bem mais rica e instigante, mesmo com todos os problemas que o filme tenha. Outra idéia ocorrida no debate. Conforme outra colega questionava a vocação dos personagens de Meu País (aliás u mtítulo complicado, mas que Ristum não abre mão), fui lembrando de outro filme, mas a qual não chegava. De repente, pronto. É, claro, País do Desejo, de  Paulo Caldas. Até no título eles dialogam. Mas há mais claro. Temos os dois irmãos de personalidades distintas, mas em Caldas sem tanta rivalidade, ou ao menos, rivalizando respeitosamente, o personagem que vem de fora para subverter a ordem. E não falo “de fora” somente no sentido geográfico, ainda que haja a figura em ambos. Mas uma personagem que vem abalar estrutura de certa acomodação, a irmã desconhecida da família em Meu País, a pianista que vem impor a crise na fé de um padre em País do Desejo. Mas talvez seja mais nos problemas que ambos os filmes coincidam. A dificuldade em lidar com a classe média alta do país, de retrata-la como foco de questões intrinsecas e não necessariamente opostas a outros estratos sociais. Uma ambientação asséptica, mais uma vez. Enfim, uma comparação a ser trabalhada melhor, talvez longe de festivais onde tendem a ter avaliações acirradas, como foi o caso de Caldas em Gramado, ou incipientes, como hoje aqui com Ristum.

Também não quero me alongar muito no tema principal do post. Conversei um pouco com Jean Claude Bernardet antes de ele sair do hotel para o aeroporto, em direção a São Paulo. O grande pensador do nosso cinema, o francês belga que nos relega análises acuradas da produção brasileira, é um dos roteiristas de Hoje, o filme de Tata Amaral. Não foi esse o tema da conversa, pois achei que sua explanação no debate do longa foi suficiente, mas uma questão trazida novamente a baila pelo filósofo da USP Vladimir Safatle em palestra há dois dias aqui no festival. Safatle ecoou uma provocação que Bernardet enveredou anos atrás, há uns cinco anos talvez. Foi uma bomba quando o crítico publicou artigo dizendo que a produção do cinema argentino, a de ficção, era muito melhor que a brasileira, e se a idéia não parece nova hoje naquele período foi nitroglicerina pura, na expressão da minha colega e amiga Maria do Rosário Caetano. O que quis discutir com ele, já que Safatle não tinha tempo para tanto, é se o documentário no Brasil não seria além da linguagem possível e viável economicamente uma escolha mesmo estética que melhor representaria nossas necessidades cinematográficas, por assim dizer, a cara do Brasil. Bernardet pediu cuidado, atenção ao que chama de fetichização do documentário. Lembra que filmes como Tropa de Elite também pode e nos representa de modo significativo. E deu exemplo de um sociólogo entrevistado que apontou estar a verdade muito mais no retrato de Padilha do que na mídia que, por exemplo, sacralizou a policia carioca quando esta invadiu o Complexo do Alemão. Argumentos, claro, muito bons e quase irrefutáveis. Mas eu ainda acho que há boa e valorosa tradição na linguagem documental brasileira e que talvez devemos atentar mais a ela do que confrontar o talento nacional ao dos hermanos.

 

O bem do excesso e o mal da contenção

Brasília — Amigos, creio que não poderiamos ter um longa em competição mais sintomático para um debate após  a exibição de Hoje, de Tata Amaral, do que O Homem que Não Dormia, de Edgar Navarro, que vimos aqui anteontem. Enquanto o filme da paulistana segue pela via poética, elaborada, intimista, o baiano Navarro pega caminho inverso: é exagerado, explosivo, irreverente, até mesmo beirando o gosto duvidoso. E isso resulta em boa coisa? Antes de tudo deve-se dizer que Navarro paga o preço por essas escolhas e as assume em suas fraquezas, problemas mesmo. Para tentar puxar um fio de trama, o filme parte de um contexto fabular sobre a maldição que paira sobre uma pequena comunidade da Bahia a partir da tragédia de um barão que assassinou sua mulher por ciúmes. A partir disso, está condenado a vagar sem descanso. É o homem que não dormia, interpretado em dois tempos pelo próprio Navarro e o mítico ator e cineasta baiano Luis Paulino dos Santos. Esse drama se abre para outros. O principal é o do padre atormentado (o ótimo Bertrand Duarte, protagonista do premiado Superoutro, de Navarro), em crise entre a vocação e a sedução de belas mulheres do local. Curioso que esse tema esteja voltando as telas, como em A Professora Maluquinha, em contexto claro muito mais leve e cômico, filme baseado em Ziraldo, que aliás entrevistei ontem para a Carta Capital, e me disse como a troca da batina por um rabo de saia era comum num interior de seu tempo. Mas voltando a Navarro. O padre não consegue ser o líder religioso que a comunidade espera. E que comunidade. Há os comerciantes que passam o dia conversando sobre a vida alheia, o que é no mínimo uma ironia de Navarro, já que inverte o clichê de assunto de mulheres, sobre “cornos, putas e viados”. Há as figuras habituais desses vilarejos, os loucos, por exemplo, um vitima de torturas na ditadura, outro por maltratos do pai. Todos de alguma forma estão vinculados aquela maldição maior e procuram extirpa-la. Navarro não costura esses dramas na linha de narrativa realista, didática, e antes as fragmenta. Pode ser em parte pelo filme ter levado tres décadas para se concretizar, desde um primeiro roteiro em 1978, um novo formato em 1993, até chegar ao atual. Mas me parece muito mais vinculado a um proposta autoral, na medida em que Navarro diz ter pensado o filme a partir de surtos, de inflexões mais espirituais do que “materiais”, como chama. Apontou influências como a de Artur Bispo do Rosário, o sergipano diagnosticado como esquizofrênico e que criou uma obra plástica impressionante. Comparou-o ao seu longa anterior Eu Me Lembro, relato ficcional de suas memórias da înfância, e por assim dizer, mais palatável. Alguns colegas disseram não ter conseguido entrar no filme, aprecia-lo em sua essência como requer a proposta do diretor. Eu não tive essa dificuldade. Gostei justamente de seu excesso, que me parece herdeiro em linha direta de Glauber Rocha, mas sem a verve politizada este. Navarro vai mais para uma crônica social, de tradições baianas, como a mescla religiosa, o sincretismo tão reconhecível daquele povo e do brasileiro em geral. Gostei de como o filme me tirou do eixo das narrativas mais convencionais.

Convencional, acredito, como Meu País, de André Ristum, que já havia visto em Paulínia. Foi exibido aqui ontem a noite dentro do pacote não inédito do festival. Cauã Reymond e Rodrigo Santoro são os irmãos que voltam a se encontrar em São Paulo depois da morte do pai. O personagem de Santoro vive na Itália com a mulher e distanciou-se do núcleo familiar. No testamento do patriarca, está uma surpresa. Uma filha (Debora Falabella) fora do casamento do pai foi criada numa clínica por ter problemas mentais. O ponto dramático do filme será o encontro dos dois herdeiros com essa irmã desconhecida. A favor, pode-se dizer que o filme tem um bom confronto emotivo, mas sempre consequência de ações um tanto artificiais, facilitadoras, como o comportamento rebelde do caçula de Reymond. Me parece tudo muito comportado, contido, e não no sentido proposital, o que dá um ar superficial, anódino ao drama. Falta alguém ali explodir, o que é excedente em Navarro, falta em Ristum. Engraçado que André morou boa parte na vida na Itália, experiência que reencontra no personagem de Santoro, porque o pai, o cineasta Jirges Ristum para lá foi trabalhar com grandes como Bertolucci. Mas Jirges também foi amigo e trabalhou com Glauber. As experiências pessoais, pena, poderiam também se reproduzir de forma mais latente no filme.

Hoje ótimo, ontem melhor ainda

Brasília — Desculpem o trocadilho acima quando lerem esse post, mas é para dar logo a idéia que tivemos uma noite muito boa ontem na tela do Cine Brasília com o longa-metragem de Tata Amaral em competição. E como se chama o filme? Hoje. Há todo um percurso para se chegar a justificativa desse título, um momento significativo e de ruptura para a personagem central, em belo desempenho de Denise Fraga, e saliente-se, dramático. Mas o que se deu melhor ainda foi o debate com a equipe nesta manhã, de alto nível, descontraído, sem choques que as vezes acontecem, digo de atitudes destemperadas, porque no universo das idéias, das opiniões eles até aconteceram, o que é bom. Até porque tinhamos na mesa, além de Tata e sua dupla fundamental de atores, Denise e o uruguaio Cesar Troncoso, um pensador do calibre de Jean-Claude Bernardet, que divide o roteiro com Rubens Rewald e Felipe Sholl, ausentes, e uma equipe técnica de primeira. Jacob Solitrenik na fotografia, Idê Lacreta na montagem, Vera Hamburger na direção de arte. Eles fazem toda a diferença na produção de Tata, que elogiou Bernardet por sua generosidade na troca de idéias e críticas quando necessárias, mas ela também o é, pois deixou claro que todos ali podem interferir na feitura do filme, dar sugestões, debater, o que, como se sabe, não é praxe entre cineastas. Mas ao filme. Denise é Vera, ou Ana Maria, sua alcunha no embate na guerrilha contra a ditadura, que em 1998, período do filme, recebe uma indenização pelo companheiro supostamente desaparecido na rede dos militares. Com o dinheiro, compra o apartamento sonhado e no dia da mudança, entre os caixotes e lembranças desenterradas, surge esse homem do passado (Troncoso), com quem ela viverá intenso conflito e reviverá velhas feridas. Não seria trair a intenção dos realizadores, no plural porque acho fundamental aqui a parceria com os roteiristas, dizer que essa visita a Vera/Ana Maria lhe chega como um fantasma, condição que aos poucos é sempre cotejada para uma revelação que não se impõe como dispositivo hollywoodiano. Trata-se de um trabalho elaboradissimo em cima de livro de Fernando Bonassi, que Bernardet comentou ter tomados algumas liberdades, todas, como se verá, significativas, não casuais. Toda a ação se passa dentro deste apartamento, sendo o exterior lembrado pela visão das janelas para a cidade (lembram-se de Através da Janela?), com rarissimas fugas para a rua. É o “hui clos” que Tata tanto gosta em seu cinema. Foi assim com Um Céu de Estrelas, o próprio Através da Janela, sendo Antonia a exceção que confirma a regra. Tata diz que não é de caso pensado. Tanto que seus dois documentários recentes, O Rei do Carimã e Trago Comigo, ambos de viés mais pessoal, não seguem por esse espaço fechado que domina a sua ficção. Com estes dois últimos, feitos para projeto da TV Cultural, Tata acredita que fecha uma trilogia, ligada não necessariamente a um passado político, mas seu, pessoal, de memória. Carimã é sobre seu pai. Trago Comigo cai sobre um diretor de teatro as voltas também com a lembrança política da luta armada, ou melhor, o esquecimento sobre ela. Os personagens de Troncoso e Denise se degladiam verbalmente sobre esse esquecimento. Hoje é dedicado ao marido de Tata que morreu de modo trágico quando a filha de ambos tinha apenas tres meses de vida. Agora Caru já tem trinta anos e é a produtora de Hoje. O ciclo se fecha. Ou talvez esteja bem próximo disso já que mãe e filha vão dirigir um filme juntas, de sintomático título Um Assunto de Família. O festival assim cresceu bastante na sua fatia inédita inaugurada ontem.

Brasília e Hoje

Brasília — Caros, só um post rápido para dizer que cheguei hoje de manhã ao Festival de Brasília, que começou na ultima segunda-feira, mas que por outros compromissos não pude comparecer desde a abertura. É uma 44ª e polêmica edição esta. Mal se chega e já é possível sentir uma atmosfera mais pesada no ar, e não aquele ar seco do cerrado que toma conta da capital nesta época. Trata-se de um clima pouco amistoso entre a comunidade cinematográfica, especialmente a local, e mesmo política e seus representantes para a área da cultura e do cinema. O festival, como se sabe, mudou muito este ano. Adiantou sua data para tentar perder menos terreno para outros eventos do calendário, como o Festival do Rio, abriu mão do ineditismo e tenta apostar numa agenda mais atrelada a discussão de politica cultural, leis de incentivo, deixando muito do posto de visão privilegiada de uma nova e tradicional cinematografia brasileira. Enfim, decaiu a princípio em seu valor no circuito dos festivais. Exemplos disso são um aparente descuido de autoridades que deveriam prestigiá-lo e não o fazem, a exemplo da ministra Ana de Holanda, que não compareceu ao seminário para qual foi convidada alegando outros compromissos. Os diretores locais estão descontentes com esse rumo de uma vitrine que afinal é nacional mas também, e  compreensivelmente, deles. Sentem-se desvinculados, afastados do evento. Quem afrontou isso de maneira direta foi José Eduardo Belmonte, que decidiu cancelar sua participação como mediador em mesa do seminário. Minha colega e querida amiga Maria do Rosário Caetano me conta que ele deu bela e articulada entrevista ao Correio Braziliense, que estou tentando recuperar e depois comento aqui. Claro, solta os cachorros em cima da nova política do festival.

Mas, enfim, vamos falar sobre o que viemos buscar aqui, bons filmes. Nesses dias em que estava ausente, foram exibidos Rock Brasília, fora de concurso, o documentário de Vladimir Carvalho sobre os grupos de rock que marcaram a geração dos anos 80 por aqui, em especial Legião Urbana e o ícone Renato Russo. Depois, terça, As Hiper Mulheres, bom documentário que já comentei aqui sobre as mulheres da tribo Kuikuro e sua dança-ritual de forte conotação sexual. Ontem, tivemos mais uma vez Trabalhar Cansa, que pude acompanhar hoje em debate. Acho sempre mais interessante falar do filme, rico em abordagens, mas ainda não me convenci dos propósitos da dupla de diretor Marco Dutra e Juliana Rojas. Mas vejam e comentem. O filme entra em cartaz na próxima sexta.

E hoje temos Hoje. É o título do novo filme de Tata Amaral e o primeiro realmente inédito na programação a ser exibido. Estou com boas expectativas, até porque casualmente encontrei Tata por São Paulo, no cinema ou nos bares, várias vezes nesses últimos dias. E quando cheguei hoje ao aeroporto daqui lá estava ela na área de desembarque, não esperando por mim naturalmente, embora não me furtei a brincar que se tratava de uma pressão sobre a imprensa, mas pela cópia do filme, que chegava fresquinha da Itália na bagagem do fotógrafo Jacob Solitrenik. Então, torcemos para uma boa noitada de cinema e deixemos para amanhã o desenrolar dessa crise pendente por aqui. Até! 

 

A Lição de Fausto

VENEZA — Fim de mais
uma Mostra di Venezia e a premiação, se não foi perfeita (e nunca será), ao
menos não cometeu muitos atentados. Sim, por que os há, mesmo que a escolha
principal tenha sido acertadissima. Como apontei poucos instantes antes da
premiação, a aposta em Faust para o
Leão de Ouro era grande por aqui e o júri confirmou. Nunca se sabe o que
colegiados como esses em festivais podem fazer, e se parecia evidente que não
havia competidor a altura da qualidade do Fausto de Sokurov, também este era um
filme que exigia risco e coragem para o premio principal.  Um presidente americano na liderança poderia
repetir a atitude um tanto questionável de Tarantino no ano passado, quando na
posição do colega Aronofsky premiou Sofia Coppola, além de tudo sua
ex-namorada.Parece que toda essa força do atual presidente se voltou para o
prêmio de Michael Fassbender por Shame, também
justificável, embora poderia se pegar caminhos alternativos, como o quarteto de
Carnage/Deus da Carnificina, de
Polanski, que saiu de mãos abanando. Não cabem todos nos prêmios, ainda bem,
mas talvez o trabalho de Polanski, especialmente na condição pessoal de “exilado”
em que se encontra , merecia ser lembrado. Atitudes políticas a parte, o filme
é muito bom. Mas assim também é Terraferma,
de Crialese, que levou o Prêmio Especial do Júri, num reconhecimento que a
Itália não chega há muito tempo por aqui. Crialese está fazendo bela carreira,
é de se esperar que abocanhe o Leão de Ouro em breve. Talvez lhe coubesse
melhor o Leão de Prata, o que honra o diretor, porque é acima de tudo um bom
trabalho de direção, com uma perspectiva pessoal e, embora evite a idéia,
política sobre a questão dos imigrantes na Itália. Mas o júri preferiu o
representante da China continental, numa co-produção com Hong Kong, Cai
Shangjun, de People Mountain People Sea, o
filme surpresa deste ano que acabou tendo sua projeção prejudicada por um
incidente na sala, quando uma lâmpada da iluminação queimou e gerou uma
debandada dos jornalistas. Quando a sessão recomeçou, justo numa reviravolta da
trama, a história pareceu perder impacto e ficou um tanto confusa. De qualquer
forma, é um filme forte e confirma uma grande atenção que Veneza, leia-se seu
diretor Marco Muller, dá aos representantes asiáticos.

Se acertou em
algumas escolhas nesse topo da premiação, o júri escorregou em outras. A Coppa
Volpi de melhor atriz para Deanie Ip, no filme de Hong Kong Tao Jie, ou A Simple Life no título internacional, elege uma atuação um tanto
melodramática, embora não se possa tirar da intérprete a força de carrregar
todo o filme, por sua vez também uma novela comum de empregada idosa que vai
morar numa casa de repouso. Pior ainda é a eleição do casal japonês
protagonista para o troféu Marcello Mastroianni para jovens intérpretes. Ambos,
além do próprio filme, são a própria histeria distorcida na tela, que poderia
ser interessante para representar o Japão pós-terremoto e tsunami. Himizu deve ser um dos primeiros filmes
lançado num grande festival internacional a trabalhar sobre os escombros de um
país traumatizado pela tragédia e merecia um tratamento melhor.

De modo
geral, a premiação atentou talvez demais a um cinema tradicional na concepção,
ainda que a qualidade artística de Faust o
isente de maiores ousadias. Interessante a exceção em todo esse painel de Alps, o concorrente grego que ficou o
melhor roteiro, parceria do próprio diretor Yorgo Lanthimos. Um filme que busca
a estranheza, o enigmático, sem perder o caminho de um realismo cruel. Essa
busca pela experimentação é bem mais o que se espera de um festival, de uma
premiação. Veneza está melhor que nos últimos dois anos, mas ainda tem muito a
amadurecer, deixando para algum bloco de fora da competição filmes italianos
como o de Cristina Comencini, Quando la Notte, vergonhosos quando inseridos na
seleção principal apenas por ser da casa. Desta vez havia Faust, mas nem sempre haverá.

E deu Sokurov!

VENEZA — Caros, os melhores de Veneza, segundo o júri oficial:

Leão de Ouro — Faust, de Alexander Sokurov

Leão de Prata de melhor direção — Cai Shangium por People Mountain People Sea

Grande Prêmio do Júri — Terraferma, de Emanuele Crialese

Coppa Volpi de melhor atriz — Deanie Ip  por Tao Jie

Coppa Volpi de melhor ator — Michael Fassbender por Shame

Premio Marcello Mastroianni para melhor ator e atriz principiante — Shota Sometani e Fumi Nikaidou por Himizu

Osella de melhor roteiro — Giorgos Lanthimos e Efthymis Fillipou por Alps

Osella de contribuição técnica — melhor fotografia para Robbie Ryan, de Wuthering Heights

Leão do Futuro para primeiro filme — Là-Bas, de Guido Lombardi

Os leões

VENEZA — Matérias para redigir para Carta Capital, entrevistas (muitas) e filmes além da competição que não pude resistir me deixaram ausente do blog alguns (muitos?) dias e daqui a pouco já começa a entrega dos prêmios, Leões entre os os mais importantes,  a Copa Volpi para intérpretes etc. Então aproveito que cheguei até aqui para analisar rapidamente os que tem mais chances, ou ao menos em que se aposta. Depois prometo um balanço mais detalhado. Um colega espanhol que escreve para o diário El Mundo acaba de me dizer que Faust, ou Fausto, de Sókurov deve ser o vencedor do Leão de Ouro. A correspondente em Roma que tem ligações aqui no Lido, diz ele, lhe garantiu. Se for, ótimo. É a minha scelta, a minha escolha, como dizem os italianos. Mas será que a de um júri presidido por Darren Aronofsky, o americano de Cisne Negro? Entre os colegas brasileiros já fiz uma conexão tortuosa. Aronofsky poderia se interessar pela história lendária do homem que faz pacto com o dito para ter poder. Não é um pouco o que acontece a personagem de Natalie Portman, a bailarina que persegue o papel principal do balé em questão? Sua conversa com Mefistófeles é outra, mas não deixa de ter também seu preço muito caro. Talvez seja uma ligação muito refinada para um diretor que fez de uma trama interessante um filme rocambolesco, apelativo e destrambelhado. Ele que ganhou o Leão de Ouro por O Lutador há dois anos, numa edição fraquissima, e apresentou no ano seguinte Cisne Negro também aqui.

O Fausto do russo é de outra ordem e quilate. Um belissimo filme, uma pintura como é próprio do cinema de Sokurov para buscar o lado mais humano do personagem e sua sede por poder. O filme fecha a tetralogia do cineasta dedicada ao tema, com Hitler em Moloch, Lenin em Taurus, Hiroito em O Sol. Seu Fausto sai da obra de Goethe, ou parte dela, e ele não imagina como a literatura poderia ser sem esse livro. Entrevistei o diretor para a Carta Capital e ele me disse que levou em conta a lenda precedente ao romance, porque acredita que todos temos um pouco de Fausto. Além dos belos filmes, Sokurov elabora muito bem seus credos, sai, por assim dizer do filme, para buscar outras referencia, como a pintura alemã e Turner para se basear. Esperemso que as apostas se concretizem. Algum prêmio deve levar.

Fala-se também em Shame, do diretor e artista plástico Steve McQueen. Americano sem dúvida na medida do presidente do júri. Faria mais sentido, mas premiações não precisam, não devem aliás, ter este tipo de preocupação. O sentido tem de ser pela ousadia. Espermos, já já posto os vencedores!! auguri!

Jogo duro

VENEZA — Dia dificil (e estou no teclado italiano, desculpem a falta de acentos)! Apenas uma geral para lhes dizer que o dia foi tambem jogo duro na tela. Logo na primeira sessao, que começa as nove da manha no horario local vimos, desculpe, uma porrada de Steve McQueen. Voces sabem, nao se trata do ator icone do macho durao de Hollywood (lembram do tabefe em Ali McGraw em The Getway?), mas do diretor e tambem artista plastico homonimo. O curioso é que este McQueen tambem nao esta para brincadeira. No seu primeiro filme, Hunger, acho que so exibido no Brasil em mostras independentes, falava de um prisioneiro que faz greve de fome e vai ate o limite. Agora, com Shame, ele volta a trabalhar com Michael Fassbender como um viciado no sexo barato, na internet, com prostitutas, e que se masturba com frequencia, mas que nao consegue praticar, por assim dizer, um sexo saudavel. Chega a frequentar um clubinho gay para uma rapida transa. Convive mal com sua irma (Carey Mulligan), tambem uma jovem sem rumo que exige a presença do irmao em sua vida. McQueen faz um retrato sem concessoes, inclusive exibindo seus atores em nu completo. Estao otimos, e desde ja sao apostas fortes para premios nas categorias. Depois tivemos o novo Emanuele Crealese, Terraferma, que voces conhecem no Brasil por Novo Mundo. Como aqui, ele volta ao territorio da Sicilia, ou melhor, numa das ilhas proximas, para tocar na questao dos africanos que se poem ao mar na Africa para tentar a vida como clandestinos na Italia. A relaçao se da atraves de uma familia de pescadores que acaba por socorrer algumas dessas pessoas no mar, ao mesmo tempo que estao tentando fazer da ilha um local popular de turismo. Poderia ser Lampedusa, uma ilha de frequente chegada de africanos, mas o diretor disse hoje em entrevista que prefere pensar num local imaginario. Otimo filme, que veio incomodar a Italia de Berlusconi com suas leis duras e xenofobas sobre a imigraçao ilegal. O festival hoje cresceu. Depois comento mais.